sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Mais um pouco sobre mim


   Além de contar pra vocês sobre o meu momento atual, vou contar como tudo começou e como as coisas foram se desenvolvendo pra mim.
   Perdi pessoas muito queridas quando estava passando de criança pra adolescente, por volta dos 11, 12 anos de idade. Pelo que eu me lembro, foi a partir disso que as coisas se tornaram difíceis pra mim. Eu sabia o que era a morte, pois sempre tive muitos animais e perdi vários deles. Mas nunca fiz a ligação, nunca sequer parei pra pensar que poderia perder uma pessoa que eu amava. Até que ouvi minha mãe chorando no telefone e dizendo que meu avô estava com câncer. Eu sabia bem o que isso significava e me desesperei. Depois disso foram 2 anos de luta e quando ele estava no auge da doença veio a surpresa. Perdemos minha avó. Assim, de repente. De um dia pro outro quando estávamos todos preocupados com a situação do meu avô, ela se foi. Poucos meses depois, depois de lutar muito, ele também se foi. Ficava num quarto nos fundos da parte mais antiga do hospital, na parte térrea. Havia no corredor ao lado uma janela grande e linda, como nos filmes antigos. De lá eu ficava observando o jardim e pensando em tudo que estava acontecendo e acreditava que ele fosse se recuperar, mesmo no fim, eu não queria acreditar que o perderia também. Eu era muito apegada a eles, muito unida, os via quase que diariamente e eles sempre foram muito carinhosos comigo.
No dia 3 de novembro de 2000, ele se foi. E deixou um buraco enorme na minha alma. A transição de criança pra adolescente foi muito difícil pra mim. Enquanto todas as meninas estavam vivendo intensamente aquela mudança, estavam aproveitando, dançando, curtindo cada detalhe. Eu só queria continuar sendo criança e tê-los de volta.
   Depois disso vieram as críticas por eu ser diferente. Muitas críticas. Por eu ser sério, magrinha, por não ter nenhum namoradinho, por não ser atraente, por ser tímida, por gostar de ser criança. Enfim, milhares de criticas por eu não seguir aqueles padrões que todo mundo exige que a gente siga.
   Chorei muito, me entristeci muito, quis deixar de frequentar a escola por diversas vezes. Me sentia um lixo perto das outras meninas. E desde bem criança sempre fui criticada por ser diferente. As outras meninas me julgavam por eu não ver diferença nas pessoas e ser amiga das meninas que não tinham amigas. Nunca diferenciei uma pessoa da outra por nada. Se a pessoa me agrada eu vou estar perto dela e me dedicar ao máximo, eu simplesmente não consigo ver diferença nenhuma e sempre fui assim.
   Depois de muitos anos assim, sendo diminuída, rebaixada, humilhada. Me colocaram numa turma de pessoas que eu não conhecia, mas que eram pessoas maravilhosas cujo alguns deles são meus amigos até hoje. Eram os chamados "excluídos" da escola. Todos aqueles que eram criticados por não seguirem padrões, foram os meus melhores amigos. E na maioria homens, pois pras meninas eu ainda era um lixo. Era vergonhoso ter uma amiga como eu. Então tive muitos amigos homens. Eles eram inocentes e eu também. Nossa amizade foi e continua sendo pura e verdadeira, sem interesses e sem julgamentos. A partir daí comecei a ter mais auto-confiança.
   Não fui uma adolescente muito tranquila. Era bem revoltada, bem agressiva, bem problemática e causei muitos problemas aos meus pais, que constantemente eram chamados na escola. Mas eu não cometia nenhuma maldade, apenas defendia meus ideais e em primeiro lugar, não queria e não aceitava preconceito nenhum. Queria mudar, queria revolucionar e acabava quebrando tudo. Tem professores que certamente tem calafrios só de me ver na rua.
   Com 15 anos mais uma paulada na cabeça. Perdi um primo que eu sempre considerei irmão, ele com 17 anos, faleceu num acidente de carro. Isso me abalou muito. Depois disso comecei a beber com muito exagero. Às vezes dava um jeito de beber antes até de ir pra escola, as 7 hs da manhã. Chegava em casa e passava as tardes bebendo. Quando meus pais chegavam, lá estava eu, deitada na cama pra que ninguém percebesse o meu estado. Só via tudo rodando. E passei minha adolescência assim.
   Montei uma banda (eu canto e toco alguns instrumentos) e fui ser feliz com meus amigos! A música me ajudou muito, sempre. Conheci muita gente maravilhosa. As pessoas mais marcantes entraram na minha vida pela música.
   Lá pelos 17 anos comecei a sentir a maioria dos sintomas. Não tinha internet na época e nem informação nenhuma sobre problemas psicológicos. Por muito tempo tudo parecia normal pra mim. A minha possessividade tomou conta de mim em todos os relacionamentos amorosos e na verdade, toma conta de mim até hoje. Queria as coisas do meu jeito e se não fosse assim, eu surtava e ia até os extremos pra conseguir o que queria. E eu ainda sou assim. Só não sou quando não pisam no meu calo, mas se pisarem eu não sei me controlar.
    Comecei a me cortar mais ou menos com essa idade, 17 anos. Passei madrugadas geladas no inverno da serra gaúcha (temperaturas negativas), sem roupa, deitada no chão do quarto chorando e vendo meu sangue escorrer. Eu simplesmente só me sentia melhor assim. Precisava de alguma coisa que pudesse aliviar a minha dor e o sangue fazia eu me sentir melhor. Infernizei a vida de alguns amigos.      Eu queria atenção, queria carinho, queria amor. Queria um amor que nunca tinha vivido, ou talvez, só quisesse um novo amor, que me fizesse sentir viva. E fui rejeitada. Fui muito amada, por alguns que inevitavelmente perderam a paciência comigo e chegaram a dizer que me odiavam. Mas também fui rejeitada e isso me destruiu.
   Meu pai teve suspeita de câncer e eu surtei de vez. Bebia até pra ir no hospital ficar com ele. Mas depois de um ano morrendo por dentro, ele melhorou. A lesão sumiu e ficou tudo bem. Mas vivo com um medo imenso de passar por aquilo de novo.
   Hoje tenho a maioria dos sintomas bem definidos. Como já disse, estou me tratando a pouco tempo, mas ainda tenho tido dificuldades. Paciência não é o meu forte e muito menos alegria demais.
   Passo dias bem, tento me ocupar com outras coisas que me fazem bem, mas ainda assim. Só eu sei o que eu passo por dentro. O sorriso é só pra esconder a verdadeira dor, o verdadeiro eu. A maquiagem esconde um olhar triste e cansado. A esperança é como um quadro que eu pinto todos os dias. Não é a minha verdade, não é real. Eu a invento, eu a desenho. Há dias em que eu a deixo de lado e me permito chorar.    Ainda passo noites em claro pensando em como vai ser daqui pra frente já que não tenho planos nem expectativas.
   O que sei é que não aguentei mais viver sem ajuda, eu preciso falar, eu preciso colocar pra fora. Conversarei com vocês então, e com o terapeuta. Espero sinceramente que isso possa me proporcionar pelo menos dias melhores. E desejo o mesmo a vocês! Que tenham dias melhores, momentos melhores e que possam viver cada momento sem pensar em como será o próximo. Como disse Camila, no final do filme indicado pela Lidiana, Nome próprio: "Algumas vezes quebram minhas pernas, chutam minha cara, pisam em meus dedos. Eu sobrevivo. Tenho sobrevivido. Sou marcada, sim. Mas faço valer cada uma das minhas cicatrizes".

3 comentários:

  1. Muito obrigada pelo comentário e pela força que sempre tem me dado Lidi!
    Com certeza certas coisas que nos marcaram demais influenciaram e muito, pra termos desenvolvido esse transtorno. Mas uma coisa é certa, apesar de toda dor, somos pessoas sensíveis com a dor alheia. E pra mim isso é essencial. Saber se colocar no lugar do outro é uma das maiores qualidades que o ser humano pode ter e nós temos isso!
    Agradeço muito o comentário e o desabafo! Sinta-se a vontade pra dividir o que sente aqui! E obrigada por tudo! Bjs

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  2. Agnes,ao ler esse post,posso dizer que senti tudo o que você expressou a cada palavra dita.Sabe um filme que passa pela sua cabeça?Foi isso.Espero conversar muito com você.

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